Blog do Prof. Sacconi

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Bem-vindo a seu blog de língua portuguesa!
por Luiz Antonio Sacconi.

 
Atender
Postado por Prof. Sacconi, 30 Setembro, 2008   

Vejam como é simples a regência do verbo atender: é transitivo direto ou transitivo indireto, indiferentemente, quando o complemento é pessoa; é apenas transitivo indireto, quando o complemento é coisa. Exemplificando:

O diretor da escola não quis atender o (ou ao) pai do aluno. (O pai do aluno = complemento representando pessoa.)

O diretor da escola não quis atender ao pedido do pai do aluno. (O pedido do pai do aluno = complemento representando coisa.)

O presidente não atendeu o (ao) ministro.

O presidente não atendeu ao apelo do ministro.

Vejam agora como o Unibanco está fazendo publicidade nas principais revistas do país:

O Unibanco já começou a se preparar para o novo Código de Auto-Regulação do Sistema Bancário Brasileiro que a FEBRABAN (Federação Brasileira de Bancos) lançou no dia 17 de setembro. Ele contém uma série de orientações que vai deixar os produtos e serviços bancários ainda mais claros e simples de aproveitar. O banco que nem parece banco saiu à frente outra vez e já está se preparando para atender o novo código, com o objetivo de oferecer todas as suas facilidades para quem mais vai se beneficiar: você.

Nem parece banco…


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Crase
Postado por Prof. Sacconi, 28 Setembro, 2008   

Todo e qualquer aluno que esteja no ensino médio deve estar cansado de ouvir isto de seus professores: Não se usa o acento grave no a antes de palavras no plural. Por isso, toda reunião tem de ser a portas fechadas, e não “à” portas fechadas. Vejam bem: estou falando de um aluno qualquer do ensino médio, não de jornalistas, porque jornalistas formam uma classe especial, à parte. Reparem nesta manchete e texto subseqüente de um deles, em O Estadão:

Pessoas solitárias sentem mais frio.

Sensação de solidão também está ligada à bebidas quentes, como chá ou sopa.

Esse é o tipo do jornalista que deveria tomar um chá de semancol e voltar aos bancos escolares.


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A e Para
Postado por Prof. Sacconi, 28 Setembro, 2008   

São duas preposições que não se usam indistintamente, quando se trata de verbo dinâmico, ou seja, o que dá idéia de movimento. Assim, usamos:

O professor foi à diretoria e voltou à sala de aula. (Os verbos ir e voltar foram usados com a preposição a, porque a idéia é de ir e retornar imediatamente ou em breve e de voltar nas mesmas circunstâncias.)

O professor foi à escola cedo e já voltou para casa. (O verbo voltar foi usado com a preposição para, porque aqui a idéia é de voltar para ficar em casa por um bom tempo. Notem que todos dizemos às crianças: Se for bonzinho, você vai para o céu; se for malcriado, você vai para o inferno. Naturalmente: quem vai para qualquer desses lugares não retorna jamais…)

Vejam agora esta manchete de O Estadão:

Astronautas chineses voltam à Terra.

Teriam a intenção os chineses de tomar aqui um cafezinho e retornar ao espaço?…


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Mega
Postado por Prof. Sacconi, 28 Setembro, 2008   

O elemento mega, usado como substantivo, varia normalmente (2 megas, 3 megas, etc.), assim como os prefixos mini- e hiper-, que, usados como substantivo, não só variam como recebem acento: os mínis (= minidicionários) do mercado; os híperes (= hipermercados) da cidade. A Embratel está fazendo anúncio nas principais revistas do país desta forma:

Chega de sofrer. Embratel Pequena e Média Empresa. Quem experimenta fica.Internet banda larga de até 2 mega de velocidade.

Chega de sofrer…


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A vírgula e o ecoturismo
Postado por Prof. Sacconi, 28 Setembro, 2008   

Há uma regrinha simples de uso da vírgula que diz o seguinte: sempre que a conjunção que vier depois de tão, tanto, tamanho e tal, será obrigatório o uso da vírgula. Assim, escrevemos:

Ele falou tão alto, que todo o mundo ouviu.

Ela comeu tanto, que quase não pôde levantar-se da cadeira.

As crianças fizeram tamanho barulho, que todos acordaram.

Ele é de uma ignorância tal, que espanta!

Não é simples? Sem dúvida. A TAM faz anúncio nas principais revistas do país esta semana, desta forma:

Numa época do ano Bariloche é tão agitada que derrete até a neve.

Cadê a vírgula? A neve derreteu?…

A propósito, a Nossa Gramática Completa saiu a público a semana passada. A apresentação, escrita por mim, traz uma frase assim:

É justamente em razão dessa mentalidade, que a carência educacional no Brasil tem se mostrado tão avassaladora que o nosso ensino alcança os piores índices de eficácia, detectados anualmente por organismos internacionais.

É exatamente assim que está no livro. Cadê a vírgula antes do que? Não há. “Mas como?!” poderão perguntar vocês, já que acabo de dar a regrinha do uso da vírgula e eu próprio não a uso? Ocorre que uma “veneranda” funcionária da Editora Nova Geração (hoje ex-funcionária), sem me consultar, retirou a vírgula, achando que ali ela não tinha nenhuma necessidade. Pode ter achado até que o autor vacilara ali no uso da vírgula. Não satisfeita com a eliminação da vírgula, a “distinta” funcionária no segundo parágrafo e segunda linha da mesma apresentação, achou também que o autor havia errado quando escrevera: … constam itens novos, importantes, entre os quais “Principais dúvidas e curiosidades sobre este assunto” e mudou de os quais para “as quais”, imaginando (vejam vocês!) que esse pronome deveria concordar não com itens, mas com dúvidas. É inimaginável que alguém desse “enorme” cabedal de conhecimentos da língua trabalhasse numa editora séria, que prima pela seriedade e pelo escrúpulo. O terrível é que terei de tolerar o nome dela na segunda página do livro, como uma das responsáveis pela coordenação na produção da obra. Perfeccionista intransigente, passei dias aborrecido, mal-humorado, macambúzio. Como por aí pululam os abutres (vocês sabem a quem me refiro), que só aguardam uma oportunidade para atacar à primeira oportunidade, esse é um prato-cheio.

E o ecoturismo? Por que aparece a palavra no título? Para continuar tratando do anúncio da TAM, o qual traz:

São Paulo-Bariloche com duas freqüências semanais. Um destino fascinante onde você pode fazer ecoturismo, ir a cassinos, conhecer deliciosos restaurantes e muito mais.

E, finalmente, para lhes dizer que nenhum minidicionário traz ecoturismo, com exceção de um, que sairá em dezembro: o Minidicionário Sacconi da Língua Portuguesa, na sua 11.ª edição. São centenas de verbetes exclusivos, que só têm registro nele. Elaborei-o com o mesmo espírito de perfeição que me norteia. Espero que seja útil a um grande número de pessoas.


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Depor “à” polícia
Postado por Prof. Sacconi, 27 Setembro, 2008   

Uma pessoa pode depor que não presenciou um crime ou pode depor na polícia. O jornalismo brasileiro, todavia, que já tenta mudar a regência do verbo repercutir, agora faz esforços para mudar a transitividade também do verbo depor. Leu-se, então, num de nossos jornais, em manchete:

Netinho de Paula agride Repórter Vesgo com soco e terá de depor “à” polícia.

Há os que agridem com socos e os que agridem com o teclado, antes agressores também com a pena…


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Alerta
Postado por Prof. Sacconi, 27 Setembro, 2008   

Alerta é originalmente advérbio e, como tal, não varia:

As Forças Armadas continuam alerta.

Estaremos sempre alerta contra os bandidos.

Ficamos alerta sempre que ouvimos nosso cão latir.

A mídia parece não ter entendido muito bem isso. Então, flexiona a palavra, dando-lhe status de adjetivo. Reparem nesta frase de um dos principais jornais cariocas:

Durante o ato, foram exibidos os novos caças Sukhoi que a Venezuela comprou da Rússia no ano passado. Chávez pediu que os militares fiquem “alertas” a qualquer sinal de desestabilização.

É preciso também que os jornalistas fiquem alerta

Entrevista com o ex-presidente Sarney. Pergunta o jornalista:

Como o senhor tem visto a atuação do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, na América Latina?

Responde o nobre senador:

Não basta dizer que um país tem as instituições, quando elas não são democráticas, mas meramente formais. O que ocorre agora na América Latina é que a gente sente uma certa tentação autoritária, ou mesmo totalitária em alguns países. Devemos estar “alertas” para que não tenhamos um novo processo de autoritarismo na região.

Mais abaixo, adverte novamente o nobre senador:

Temos de estar “alertas” para defender a democracia.

Temos de estar sempre alerta, senador, que também é acadêmico.

Muitos estão usando no lugar do advérbio alerta a expressão “em alerta”, altamente irrecomendável:

Num telejornal, informa a apresentadora:

Pode haver temporais no Sul do Brasil. Veja as regiões que estão “em alerta”.

Noticia conhecido provedor:

Ar seco deixa seis Estados “em alerta”: médico explica como evitar problemas de saúde.

Às vezes, mesmo no singular, eles acabam colocando os pés pelas mãos. Noticia outro conhecido provedor:

O Estado de São Paulo segue “em alerta” devido aos baixos índices de umidade do ar.

No site de uma rádio paulistana, apareceu esta manchete:

PCC: a polícia está “em alerta”

Eis finalmente uma bobagem em dose dupla, encontrada na Internet:

Litoral paulista “em alerta”: água de coco transmite a doença de Chagas.

Nem existe “em alerta” nem muito menos a deliciosa água-de-coco transmite doença alguma, muito ao contrário.

Alerta provém do italiano all’erta (ao alto), que era a voz de comando com que se ordenava aos soldados que se levantassem e prestassem atenção às sentinelas, que ficavam no topo das montanhas. Assim, na frase Os soldados estão alerta, o termo alerta é adjunto adverbial de lugar e estar, verbo intransitivo, e não verbo de ligação.


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No “Globo Repórter” de hoje
Postado por Prof. Sacconi, 26 Setembro, 2008   

Motorista é uma palavra que se usa tanto para o homem quanto para a mulher. Trata-se de um substantivo comum-de-dois, a exemplo de pianista, dentista, etc. Existe alguma novidade nisso? Creio que não. Todavia, no programa “Globo Repórter” que será levado ao ar hoje à noite, uma repórter saiu-se com esta, ao apresentar uma mulher que trabalha a um volante:

Ela é a única motorista “mulher” de máquinas pesadas entre 2.100 homens.

Ora, sim senhor! Será possível que se, em vez de mulher, tivéssemos ali um homem, ela diria também: Ele é o único motorista homem de máquinas pesadas?

A Globo tem dessas coisas. É a emissora líder de audiência há muitos anos. Mas um líder tem de se portar como líder, tem de mostrar que é melhor que os outros não só num aspecto, mas em todos os aspectos. Ali, no entanto, acontecem coisas inacreditáveis! Eles continuam insistindo no “Roráima” (que é pronúncia de índio), já passaram um programa todo falando em um tal de “Queóps”, faraó que nunca existiu; já falaram em “um soldado mulher” e tantas outras asneiras e agora nos vêm com essa tal de “uma motorista mulher”. Não é muito para um líder de audiência?


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Viking
Postado por Prof. Sacconi, 26 Setembro, 2008   

Todo o mundo sabe o que é viking, que, na verdade, pronuncia-se váikin, mas no Brasil, a exemplo de Titanic (que todo o mundo diz titanique), todo o mundo diz víkin. Mas não é esse o problema. O problema é que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) não registra o estrangeirismo. Só traz viquingue (que nunca ninguém usou, ao menos em pleno gozo das faculdades mentais). Além de registrar essa forma estrambótica, o VOLP classifica a palavra apenas como adjetivo, quando ela é essencialmente um substantivo. Assim, para o VOLP, os vikings não existiram nem muito menos os viquingues. Sendo assim, não há como deixar de perguntar-lhes: algum de vocês ainda está disposto a marchar para o vazio?…


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Cirigüela
Postado por Prof. Sacconi, 23 Setembro, 2008   

Esse é o nome de uma frutinha comum no Nordeste. Reparem: escreve-se com ci inicial. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), no entanto, registra (que maravilha!) tanto cirigüela quanto “serigüela”. É extraordinário! Se vocês me pedissem para fazer uma comparação, eu a faria deste jeito: registrar cirigüela a par de “serigüela” é o mesmo que registrar salsicha a par de “xalxixa”. Não, por favor, não riam, porque não há mesmo diferença nenhuma! A tolice é a mesma. Imaginem agora um líder em quem vocês confiam (ou devem confiar). Ele marcha para o precipício, vocês estão vendo que o desastre é iminente, ele se lança no vazio e nele se some. Vocês o seguiriam? O VOLP tem força de lei. Mas se uma lei os manda ir pro buraco, vocês vão? Claro que não. Pois eu procuro sempre fazer o mesmo que vocês e também como o poeta português José Régio, que começa o seu melhor poema assim:

 “Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
 

Que fantástica é a poesia! Que fantásticos e divinos são os poetas! Parece que suas palavras são ditadas por Deus!


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