Blog do Prof. Sacconi

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Bem-vindo a seu blog de língua portuguesa!
por Luiz Antonio Sacconi.

 
Nova “York” - “existia-há”
Postado por Prof. Sacconi, 31 Março, 2009   

Achei que esta notícia poderia interessar a todos vocês. Vou apenas me limitar a marcar os probleminhas que ela traz (entre aspas, em vermelho). 

Quem inventou o telefone celular?

Uma vez, em um tempo remoto, houve um mundo sem telefone celular. E houve uma outra época, não tão distante, em que os aparelhos, hoje pequenos e leves, pesavam cerca de um quilo e tinham praticamente o tamanho de uma régua de colégio.

Segundo o professor de Engenharia João Ernandes Vieira, “quem desenvolveu o sistema de algoritmos foi William Lee, pesquisador de telecomunicações da Universidade de Nova York, que em 1983, na cidade de Chicago, promoveu a primeira aplicação da plataforma de telefonia móvel”.

No entanto, o professor complementa que o advento da telefonia celular deve ser inserido em um contexto maior, de evolução da tecnologia. “A comunicação via rádio já existia muito tempo, a grande vantagem foi reutilizar a frequência para permitir a cobertura de áreas ilimitadas”, explica.

Outros nomes também são relevantes na história do telefone celular. Martin Cooper, por exemplo, foi responsável por liderar a equipe que criou o Dyna Tech, primeiro aparelho portátil, que pesava pouco menos de um quilo e media 25 centímetros. A primeira demonstração do sistema ocorreu em abril de 1973, em Nova York.

Para muita gente, no entanto, o inventor do telefone sem fio foi Nathan Stubblefield, fazendeiro norte-americano do Kentucky, que teria começado a trabalhar em sua criação em 1891. O aparelho desenvolvido Stubblefield tinha o tamanho de uma lata de lixo e chegava a alcançar 800 metros. A sua intenção era estabelecer contato entre as residências, então muito distantes umas das outras. Em 1892, ele teria feito uma demonstração pública, com música e transmissão de diálogos a cinco receptores. 

1) Quem escreve Nova “York”, misturando português com inglês está obrigado (se tiver coerência) a escrever também “nova-yorkino”. E nenhum jornalista ainda cometeu mais essa asneira. Em português se escreve Nova Iorque. Quem quer escrever York, que grafe, então, New York.

2) Quando o verbo da oração principal está no pretérito imperfeito, o verbo haver, da oração temporal, tem de acompanhar: existia-havia. Se ficar “existia-há”, ocorre discrepância de correspondência temporal. 


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Pernambuco
Postado por Prof. Sacconi, 31 Março, 2009   

Não sei onde é que foram achar que Pernambuco é nome que se usa com artigo. Nunca, em tempo algum, Pernambuco foi nome que se usou com artigo. Nem agora nem na época de Camões. Sempre se construiu: Em Pernambuco há belas praias. Estive em Pernambuco no mês passado. Passei por Pernambuco ontem. Sempre sem o artigo. De uns tempos para cá, no entanto, alguns “artistas” acharam de usar artigo com esse nome. Não o usam quando é para usar (p. ex., antes de nomes de clubes e de países), mas empregam-no sem nenhum constrangimento onde essa classe de palavras não tem nenhum cabimento. Vejam o que escreveram no site Turma do Amendoim:

A viagem do Palmeiras para Recife pode ser bem mais simples do que o esperado. Isso porque a diretoria alviverde vetou qualquer intenção de ir ao Pernambuco com uma semana de antecedência ou outras programações do tipo.


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És afim ou Estás a fim?
Postado por Prof. Sacconi, 31 Março, 2009   

Convém não confundir. Afim é que tem afinidade, semelhança ou parentesco:

Esses funcionários desempenham funções afins.

São indivíduos de famílias afins.

O espanhol e o romeno são línguas afins com o (ou do) português.

Quais são as ciências afins com a (ou da) química?

O p e o t são consoantes afins na articulação.

A fim de equivale a para:

Fui lá a fim de ajudar, e não de atrapalhar.

Saímos a fim de nos divertirmos.

Os jovens usam afim por disposto (a qualquer coisa):

Vou ao cinema, Mônica. Estás “afim”?

e a inexistente locução “afim de” por interessado:

Você está “afim de” me namorar?

Rosana está muito “afim de” você, Rodrigo.

Se o uso for em três palavras, o erro será menor:

Vocês estão a fim de se corrigir?

Não são só os jovens, todavia, que usam “afim de” erroneamente. Esta mensagem, por exemplo, é de uma companhia de aviação:

“Afim de” atingir a excelência de nossos serviços, estamos disponibilizando agora a oportunidade de nossos pilotos testarem seus conhecimentos através de pequenas provas de distintas matérias.

Voar, hoje, é um perigo!!!…


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A somatória do VOLP
Postado por Prof. Sacconi, 29 Março, 2009   

Todos nós aprendemos na escola, quando a escola ainda era a escola e quando o VOLP era o VOLP que não se usa rodamoinho, mas sim redemoinho; que não se usa girabrequim, mas sim virabrequim; que não se usa selvícola, mas sim silvícola; que não se usa aborígene, mas sim aborígine, que não se usa treçol, mas sim terçol; que não se usa toxidade, mas sim toxicidade; que não se usa malcriação, mas sim má-criação; que não se usa madrilenho, mas sim madrileno; que não se usa detetar, mas sim detectar; que não se usa embigo, mas sim umbigo; que não se usa lambuja, mas sim lambujem; que não se usa camondongo, mas sim camundongo; que não se usa fleugma, mas sim fleuma; que não se usa somatória, mas sim somatório.

Pois bem. Todas essas palavras que antes eram puras cacografias, em que nossos professores metiam vermelho nas nossas redações quando assim escrevíamos, todas elas foram abonadas pelo VOLP 2009. Para a próxima edição, que será a sexta, podem esperar menas, questã, mortandela, mendingo e xalxixa

Que mal lhes pergunte, senhores luminares: pixote é mesmo substantivo feminino? ! É mesmo?! Que coisa, hem! Eu vivi toda a minha vida (que não é pouca) imaginando que pixote (cuja melhor grafia é pexote) fosse substantivo masculino e também feminino, ou seja, um substantivo comum de dois, mas não apenas feminino. Quanto mais se vive, mais se aprende, re-al-men-te (como dizia Chacrinha)…


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Alegre e Contente
Postado por Prof. Sacconi, 27 Março, 2009   

Convém não confundir esses dois conceitos. Alegre está quem manifesta ou demonstra um estado de alma prazeroso, delicioso e faz questão de que todo o mundo tome conhecimento desse seu estado. O povo fica alegre quando a seleção brasileira de futebol conquista uma Copa do Mundo, porque sai às ruas em buzinaço, fazendo carreatas, etc.

Contente está quem se encontra com o ânimo em situação agradável. Um indivíduo alegre é o contente que se manifesta exteriormente: brinca, pula, abraça, ri, etc.; uma pessoa contente é aquela que está com o ânimo em situação agradável, é aquela que está plenamente satisfeita interiormente. O povo está contente com a violência? (que só aumenta em todas as grandes cidades do país?) Uma pessoa contente não é necessariamente alegre, porque a alegria é manifestação exterior; o contentamento, ao contrário, é uma situação interior.

Na alegria, a pessoa pula, brinca, abraça, beija, etc. pode fazer o diabo para demonstrar seu estado de espírito; o contentamento não necessita disso. Pode, assim, alguém estar alegre, mas não estar contente; pode estar contente, sem estar alegre. A alegria pode fingir-se; o contentamento não. Um povo alegre nem sempre está contente (exemplo disso temos aqui mesmo). Costumo dizer que o Brasil é um país de povo alegre, mas infeliz. Há povos, todavia, que nunca demonstram alegria e, no entanto, estão sempre muito contentes. O homem alegre nem sempre é feliz; por outro lado, há pessoas que nunca demonstram alegria e, no entanto, são muito felizes. As pessoas reservadas, circunspectas, por exemplo, parecem lutar consigo mesmas para não parecerem alegres; preferem encerrar-se dentro do seu contentamento, com que já se mostram plenamente satisfeitas, ou seja, contentes.


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Afinal e Enfim
Postado por Prof. Sacconi, 26 Março, 2009   

Convém não confundir tais conceitos. Afinal indica vitória, depois de vencidos todos os obstáculos; equivale a finalmente:

Depois de tanto lutar, conseguiu, afinal, formar todos os filhos.

É também muito usada por afinal de contas:

Afinal, você casa ou não casa?, perguntou-lhe o pai da moça.

Enfim indica alívio, conforto por algo que demorava a findar ou por algo ansiosamente desejado; equivale à expressão até que enfim:

Enfim, o presidente acabou se conscientizando de que o problema é sério e vai tomar medidas contra a violência. (Vai?)

Depois da festa de casamento, costuma dizer o noivo à noiva, já no início da lua de mel (agora sem hifens):

Enfim, sós.

Só um pouco mais tarde poderá dizer, com uma ponta de orgulho:

Afinal, consegui


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O VOLP acertou (pelo menos nessa)
Postado por Prof. Sacconi, 25 Março, 2009   

Os habitantes e naturais do Acre andam revoltados e revoltosos. Não para voltarem a pertencer à Bolívia, mas por causa da mudança (desta vez corretíssima) do adjetivo pátrio deles no VOLP 2009: de “acreano” para acriano. Ora, a vogal de ligação em português não é -e-, mas -i-. Reparem que de Iraque sai iraquiano, e não “iraqueano”; de Goethe sai goethiano, e não “goetheano”, de raque sai raquiano, e não “raqueano”, e assim por diante. Os acrianos podem bater o pé, resmungar, protestar e até atropelar, mas a língua e suas normas não costumam ser sensíveis a manifestações populares. Felizmente. Diz-se que há uma deputada do PC do B que lidera um movimento para a volta dos “acreanos” com a maior urgência. Para a língua, isso é impossível (me refiro à língua séria); já para a política, tudo é possível. Tanto é que estamos vendo isso aí…


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O VOLP e o mau-senso
Postado por Prof. Sacconi, 24 Março, 2009   

Estou devendo uma explicação a vocês sobre um dos meus posts: Corréu e Subreptício. Nele, afirmo que teríamos a partir daquele instante de escrever corréu (e não mais co-réu), o que se confirmou, e também que deveríamos escrever subreptício, que não se confirmou, porque agora escrevemos com hífen: sub-reptício. Por que teria eu sustentado aquela forma? Porque tivemos (minha editora e eu) resposta dos luminares da Academia Brasileira de Letras de que o prefixo sub- não se ligaria por hífen antes de palavras iniciadas por r. Então, sub-raça, sub-região, sub-reptício, etc., que hoje assim se escrevem, deveriam ser escritas sem o hífen. Ora, se um membro da Academia fornece resposta, dá-se-lhe crédito. Mas crédito, hoje, é algo muito escasso na praça…

Outras pessoas me escreveram dizendo que fizeram consultas à Academia e tiveram, em épocas diferentes, respostas diversas. Parece que os luminares estão um pouco perdidos. Ou perdendo um pouco da luz.

Queria voltar a tratar de mais algumas incoerências do VOLP 2009. A primeira: lenga-lenga agora se escreve com hífen. (Os luminares, porém, não fizeram constar o plural.) Mas o verbo correspondente a lenga-lenga se escreve sem hífen: lengalengar. Aliás, essa discrepância já se verificava com vaga-lume, cujo verbo correspondente não se grafa com hífen: vagalumear.

A segunda: dão pingas-pinga como plural de pinga-pinga. Baseados em quê? Por que esse plural esdrúxulo para um composto formado por dois verbos iguais? Não, senhores: o plural de pinga-pinga são dois, apenas dois: pinga-pingas e pingas-pingas. Nesse caso, não costumo aconselhar a variação de ambos os elementos, em razão da pouca eufonia que disso resulta.

A terceira: por que não forneceram o plural de puxa-puxa (que também é um composto formado por dois verbos iguais)? É um mistério! Desculpem-me, mas se não fornecem, tomo a liberdade de fazê-lo aqui para os meus amigos do blog: puxa-puxa varia quando for substantivo (as puxa-puxas, a que dou preferência, ou as puxas-puxas), mas fica invariável quando for adjetivo: balas puxa-puxa.

A quarta: por que o plural de quebra-quebra e de quero-quero só são, respectivamente: quebra-quebras e quero-queros, e agora não mais quebras-quebras e queros-queros? Qual é o critério? Estou curioso de saber.

A quinta: por que carne de sol agora se escreve sem hífen, mas carne-seca, que é seu sinônimo, tem de ter hífen?

A sexta: por que carne de pescoço (pessoa de gênio difícil) agora se escreve sem hífen, mas carne-de-vaca (= coisa corriqueira), tem de trazer hifens? Qual o critério?

A sexta: por que o VOLP não resolve o problema da grafia megassena (a correta, segundo as normas da língua)? Correu à boca pequena o boato de que os luminares iriam manter “Mega-Sena” e “Tele-Sena”, para atender a pedidos. Está claro que não dei crédito a essa hipótese. Mas até agora estou intrigado com o fato de não aparecerem no VOLP nem megassena nem Telessena (que, na verdade, é quase uma marca registrada).

Por que O VOLP aportuguesa o estrangeirismo delicatessen para delicatéssen, mas classifica-o como substantivo feminino plural. É isso mesmo? Temos, então, de usar as delicatéssen?! É isso mesmo? Delicatéssen virou palavra só usada no plural, a exemplo de óculos, cócegas e hemorroidas? Isso para mim é uma novidade ciclópica!…

Bem, para lhes dizer a verdade, já estou aguardando a sexta edição do VOLP. Porque essa é brin-ca-dei-ra


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Mau-senso
Postado por Prof. Sacconi, 22 Março, 2009   

Confesso a vocês que estou estupefato, a ponto de ficar estático! Onde é que nós estamos? Onde é que nós fomos parar? Em que barafunda nos metemos? O VOLP foi publicado, mas ainda sem o beneplácito dos portugueses. Quando os lusitanos tomarem conhecimento do que é que eles serão obrigados, a partir de agora, a escrever, certamente se negarão a reconhecer que descobriram o Brasil…

Confesso que estava ansioso pela publicação do VOLP, porque achava que, nesta edição, os luminares da Academia Brasileira de Letras iriam, finalmente, resolver o caso de futsal (que é uma excrescência brutal, mas reconhecida na quarta edição e também agora nesta) e o de megassena. Incompreensivelmente, vê-se na obra futsal a par de futevôlei (se houvesse coerência, teriam de grafar futvôlei) e nada de megassena. Ora, se houve o registro de futevôlei, o mínimo que se poderia esperar era um ato de coerência e se registrasse futessal. Ou o oposto: futvôlei, futssal (que seriam, ambas, formas cômicas, porém revelariam ao menos alguma coerência). Mas não, preferiram enveredar pelos meandros escuros e formidáveis da insensatez.

Aguardava ainda eu a publicação do VOLP para ver se solucionariam a dúvida sobre a grafia de lava-a-jato (que assumo inteiramente nos meus próximos dicionários). Mas lá não se veem nem lava-a-jato nem muito menos lava-rápido, que são estabelecimentos corriqueiros, encontrados a cada esquina das nossas cidades.  

A aluvião de incoerências é de assustar: registra-se agora além-fronteira, a par de além-fronteiras, mas o antônimo, ah, o antônimo só pode ser aquém-fronteiras (eles não quiseram saber de conversa com aquém-fronteira).

Segundo as novas normas, o pseudoprefixo tele- (que prefiro chamar elemento prefixo-radical) exige hífen antes de palavras iniciadas por e. Assim, teríamos tele-educação e tele-entrega. Mas os imortais da Academia Brasileira de Letras não houveram por bem registrar tais formas, preferindo agasalhar apenas teleducação, sem fazer menção a telentrega. O que seria de esperar, numa obra sensata, seriam variantes gráficas para ambas as palavras: teleducação/tele-educação e telentrega/tele-entrega. Não, entenderam de modo diferente. A paciência, no entanto, é nossa, só nossa.

E quanto ao plural dos compostos formados por verbos iguais? A regra (desde Camões) diz o seguinte: variam ambos os elementos, ou apenas o último, quando o composto for formado por elementos verbais iguais. Assim, temos: corre-corre (pl. corres-corres ou corre-corres), pisca-pisca (pl. piscas-piscas ou pisca-piscas), etc., todos devidamente registrados no VOLP. Mas, incompreensivelmente, os luminares da Academia acharam que com empurra-empurra tudo tem de ser muito diferente. E só registram o plural empurra-empurras. Com esconde-esconde, então, nem mesmo qualquer plural tem registro. Com vira-vira (atenção, portugueses), com vira-vira também acharam de mudar (por quê?). Agora, o plural de vira-vira (atenção, portugueses) não é mais vira-viras (registrado por todos os dicionários até agora). A partir de agora, o plural de vira-vira só podem ser vira-viras e (pasmem!) viras-vira. Mas onde é que foram achar esse plural? Por mais que eu queime as pestanas, por mais que eu questione os meus botões, não consigo encontrar a razão de terem registrado esse plural estapafúrdio. Como é que os professores vão ensinar o plural desse tipo de compostos a seus alunos? Baseados em que regra, se a regra foi mandada para o lixo?  

Acharam de tirar o hífen de franco-atirador. Para que mexer nisso? Agora, os francoatiradores só podem ter uma bala na agulha…

Tiraram o hífen de franco-atirador, mas o hífen (tolo, asinino) de alto-mar continua lá, incólume. Senhores, alto mar se escreve, racionalmente, sem hífen. Se mar alto se escreve sem hífen, por que alto mar haveria de ser grafado com hífen? Ou estaria eu raciocinando erroneamente? Ou estaria eu viajando ainda em maria-fumaça, enquanto os senhores estão a todo o vapor num trem-bala?

Tiraram (até que enfim) os hifens de pôr-do-sol. Ora, retirados os hifens, a escrita não pode ser pôr do sol (como está registrado no VOLP), mas sim pôr do Sol (é o Sol que se põe, faz-se referência ao astro, e quando se faz referência ao astro, usa-se inicial maiúscula. Ou estaria eu ainda viajando no passado?…).

De há muito que venho defendendo a forma défice (em vez da tola “déficit”, registrada na quarta edição do VOLP). Os portugueses escrevem défice há muito tempo, mas nós insistíamos em grafar um latinismo com acento. Muito bem. Mudaram. A partir de agora, grafaremos défice. Mas não seria coerente e justo que fizessem o mesmo com superávit? Não. Deixaram superávit (um latinismo com acento), em vez de aportuguesarem para superávite. Quanto a habitat, nem pensar. Não aparece nesta edição. A palavra, para a Academia Brasileira de Letras, não existe. Quem sabe na sexta edição, eles resolvam nos presentear com um hábita (que é a forma aportuguesada desse latinismo).

Vejamos o que fizeram com aterrissar. Registram aterrissar e aterrissagem. Muito bem, sem novidade. Mas também acharam de registrar aterrizar. Acho razoável, por se tratar de uma forma consagrada pelo povo. Mas… cadê aterrizagem? Não traz. O VOLP não traz aterrizagem, o que nos faz supor que os aviões só podem aterrizar, mas a sua aterrizagem está inteiramente proibida.

Tudo isso — perdoem-me a comparação, tão chã — mas tudo isso me faz lembrar o saudoso Chacrinha, cujo mote vocês todos conhecem ou haverão de lembrar: Eu vim para confundir, e não para explicar.


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Bom-senso
Postado por Prof. Sacconi, 22 Março, 2009   

Saiu, finalmente, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) e, com ele, saíram também algumas bobagens, alguns contrassensos e várias inépcias. Por exemplo: registra-se agora bom-senso (com hífen), o que já preconizávamos desde a época de Camões, mas incompreensivelmente não se registra boa-vontade, má-vontade, bom-gosto, mau-gosto, bom-humor e mau-humor. Ora, se bom-senso tem de levar hífen (e tem), essas outras também têm, por absoluta coerência de critério. Além do quê, aquele que registra bom-senso também tem de registrar o antônimo, mau-senso (que não aparece também em nenhum dicionário).

A partir de agora, temos mais uma novidade: vamos escrever sub-humano, em vez de subumano. Mas o VOLP, dando uma demonstração inequívoca de seus equívocos, registra também subumano e, como num ato de confissão de incompetência, coloca dois pontos de interrogação logo após a palavra.

Em relação a dois-pontos, ocorre outro equívoco. Registra-se corretamente dois-pontos (com hífen), mas classifica-se o composto como substantivo masculino plural. Ora, então, teremos de escrever, doravante, “os dois-pontos”, em referência a apenas um dois-pontos? Os corretores de imóveis terão, agora, de falar em “os dois-quartos” (que o VOLP não registra), em referência a apenas um dois-quartos? Os treinadores de futebol terão, doravante, de fazer “uns dois-toques” em vez daquilo que sempre fizeram: um dois-toques? Os mecânicos terão, agora, de falar, em referência ao motor de dois-tempos: “os dois-tempos”, em vez de o dois-tempos?

Tiraram os hifens de pé-de-água, de pé-de-anjo, de pé-de-atleta, de pé-de-bode, de pé-de-boi, de pé-de-cana, de pé-de-moleque, etc. Ora, se retiro o hífen de um composto, ele deixa de ser um mero substantivo, para virar uma locução substantiva. Mas o VOLP e o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, continuam considerando as locuções substantivas pé de água, pé de anjo, pé de atleta, pé de bode, pé de boi, pé de cana, pé de moleque, etc. como meros e singelos substantivos masculinos. Ora, senhores, há mais coisas entre o céu e a terra…

Para o VOLP, no mundo não existem misses; não existe a fruta atemólia ou atimólia. Os luminares da Academia Brasileira de Letras parece nunca terem visto uma linda misse Bahia ou uma bela misse Brasil; nunca devem ter provado a fruta, uma anonácea, muito saborosa.

E a inépcia do registro de ciriguela, a par de “seriguela”, continua. Senhores, a forma correta é ciriguela. Apenas ciriguela. Não existe “seriguela” em lugar nenhum do mundo, senhores! Senhores, bom-senso é fundamental! Não se deixem nortear pelo mau-senso!

Senhores lexicógrafos da Academia Brasileira de Letras, prestem atenção!


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