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Confesso a vocês que estou estupefato, a ponto de ficar estático! Onde é que nós estamos? Onde é que nós fomos parar? Em que barafunda nos metemos? O VOLP foi publicado, mas ainda sem o beneplácito dos portugueses. Quando os lusitanos tomarem conhecimento do que é que eles serão obrigados, a partir de agora, a escrever, certamente se negarão a reconhecer que descobriram o Brasil…
Confesso que estava ansioso pela publicação do VOLP, porque achava que, nesta edição, os luminares da Academia Brasileira de Letras iriam, finalmente, resolver o caso de futsal (que é uma excrescência brutal, mas reconhecida na quarta edição e também agora nesta) e o de megassena. Incompreensivelmente, vê-se na obra futsal a par de futevôlei (se houvesse coerência, teriam de grafar futvôlei) e nada de megassena. Ora, se houve o registro de futevôlei, o mínimo que se poderia esperar era um ato de coerência e se registrasse futessal. Ou o oposto: futvôlei, futssal (que seriam, ambas, formas cômicas, porém revelariam ao menos alguma coerência). Mas não, preferiram enveredar pelos meandros escuros e formidáveis da insensatez.
Aguardava ainda eu a publicação do VOLP para ver se solucionariam a dúvida sobre a grafia de lava-a-jato (que assumo inteiramente nos meus próximos dicionários). Mas lá não se veem nem lava-a-jato nem muito menos lava-rápido, que são estabelecimentos corriqueiros, encontrados a cada esquina das nossas cidades.
A aluvião de incoerências é de assustar: registra-se agora além-fronteira, a par de além-fronteiras, mas o antônimo, ah, o antônimo só pode ser aquém-fronteiras (eles não quiseram saber de conversa com aquém-fronteira).
Segundo as novas normas, o pseudoprefixo tele- (que prefiro chamar elemento prefixo-radical) exige hífen antes de palavras iniciadas por e. Assim, teríamos tele-educação e tele-entrega. Mas os imortais da Academia Brasileira de Letras não houveram por bem registrar tais formas, preferindo agasalhar apenas teleducação, sem fazer menção a telentrega. O que seria de esperar, numa obra sensata, seriam variantes gráficas para ambas as palavras: teleducação/tele-educação e telentrega/tele-entrega. Não, entenderam de modo diferente. A paciência, no entanto, é nossa, só nossa.
E quanto ao plural dos compostos formados por verbos iguais? A regra (desde Camões) diz o seguinte: variam ambos os elementos, ou apenas o último, quando o composto for formado por elementos verbais iguais. Assim, temos: corre-corre (pl. corres-corres ou corre-corres), pisca-pisca (pl. piscas-piscas ou pisca-piscas), etc., todos devidamente registrados no VOLP. Mas, incompreensivelmente, os luminares da Academia acharam que com empurra-empurra tudo tem de ser muito diferente. E só registram o plural empurra-empurras. Com esconde-esconde, então, nem mesmo qualquer plural tem registro. Com vira-vira (atenção, portugueses), com vira-vira também acharam de mudar (por quê?). Agora, o plural de vira-vira (atenção, portugueses) não é mais vira-viras (registrado por todos os dicionários até agora). A partir de agora, o plural de vira-vira só podem ser vira-viras e (pasmem!) viras-vira. Mas onde é que foram achar esse plural? Por mais que eu queime as pestanas, por mais que eu questione os meus botões, não consigo encontrar a razão de terem registrado esse plural estapafúrdio. Como é que os professores vão ensinar o plural desse tipo de compostos a seus alunos? Baseados em que regra, se a regra foi mandada para o lixo?
Acharam de tirar o hífen de franco-atirador. Para que mexer nisso? Agora, os francoatiradores só podem ter uma bala na agulha…
Tiraram o hífen de franco-atirador, mas o hífen (tolo, asinino) de alto-mar continua lá, incólume. Senhores, alto mar se escreve, racionalmente, sem hífen. Se mar alto se escreve sem hífen, por que alto mar haveria de ser grafado com hífen? Ou estaria eu raciocinando erroneamente? Ou estaria eu viajando ainda em maria-fumaça, enquanto os senhores estão a todo o vapor num trem-bala?
Tiraram (até que enfim) os hifens de pôr-do-sol. Ora, retirados os hifens, a escrita não pode ser pôr do sol (como está registrado no VOLP), mas sim pôr do Sol (é o Sol que se põe, faz-se referência ao astro, e quando se faz referência ao astro, usa-se inicial maiúscula. Ou estaria eu ainda viajando no passado?…).
De há muito que venho defendendo a forma défice (em vez da tola “déficit”, registrada na quarta edição do VOLP). Os portugueses escrevem défice há muito tempo, mas nós insistíamos em grafar um latinismo com acento. Muito bem. Mudaram. A partir de agora, grafaremos défice. Mas não seria coerente e justo que fizessem o mesmo com superávit? Não. Deixaram superávit (um latinismo com acento), em vez de aportuguesarem para superávite. Quanto a habitat, nem pensar. Não aparece nesta edição. A palavra, para a Academia Brasileira de Letras, não existe. Quem sabe na sexta edição, eles resolvam nos presentear com um hábita (que é a forma aportuguesada desse latinismo).
Vejamos o que fizeram com aterrissar. Registram aterrissar e aterrissagem. Muito bem, sem novidade. Mas também acharam de registrar aterrizar. Acho razoável, por se tratar de uma forma consagrada pelo povo. Mas… cadê aterrizagem? Não traz. O VOLP não traz aterrizagem, o que nos faz supor que os aviões só podem aterrizar, mas a sua aterrizagem está inteiramente proibida.
Tudo isso — perdoem-me a comparação, tão chã — mas tudo isso me faz lembrar o saudoso Chacrinha, cujo mote vocês todos conhecem ou haverão de lembrar: Eu vim para confundir, e não para explicar.
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